segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Os médicos



Num laivo assim mais ou menos literário, mais ou menos em tom de romance ou mais ou menos realista, proponho-me falar sobre esta estranha gente a quem chamamos, hoje em dia, médicos.
Quem, de entre nós, nunca olhou com um certo misto de admiração, repúdio e dúvida, para aquelas pessoas a quem foi atribuída a nobre missão de curar as maleitas dos outros, de salvar a vida dos outros, de deixar a sua família e os seus amigos, para salvar as famílias e os amigos dos outros ou até de os enfim, como direi, "matar" com os seus erros e enganos?


Na realidade,após passarem 6 anos na faculdade, após um pesado e cansativo exame para a especialidade, e depois de mais 5 ou 6 anos no internato para se tornarem especialistas, eis-que, após terminarem o seu caminho doloroso, lhes é pedido que salvem o maior número de pessoas que conseguirem e, se possível, que se enganem pouco ou nada, para que o número de pessoas mortas por eles seja o menor.

O seu papel é assim um pouco semelhante ao de Deus, havendo até médicos que, levados por este sentimento colossal do "acabei de lhe salvar a vida", possuem este síndrome do divino, de acharem que têm o poder em forma de conhecimento para dar ou tirar a vida. Reconheçamos realmente. que não é qualquer pessoa que, passadas 24h de urgência e chegada a casa, pode dizer "Hoje salvei 10 pessoas e perdi outras tantas". É porque os médicos têm esta nobre tarefa de serem médicos e pessoas ao mesmo tempo, de se conseguirem deslocar do seu próprio corpo, para se visualizarem no corpo dos outros, é porque salvam vidas e dos seus meros enganos, erros e distracções pode advir a morte de alguém, é por causa disto tudo que os admiramos e odiamos ao mesmo tempo.

O que é que lhes pedimos então? Pedimos-lhes coisas tão simples como, perante alguém a quem o coração parou, que façam o diagnóstico, instituam a terapêutica e recuperem a pessoa "morta" em menos de 2 minutos. Pedimos-lhes que, perante 150 doentes na urgência com tosse, que saibam discernir, às 4 e tal da manhã,após quase 20 horas de trabalho, quem de entre os com tosse tem uma simples gripe, 100,uma pneumonia,30,uma reacção adversa a medicamentos, 10, um cancro do pulmão,5 ou embolia pulmonar rapidamente fatal, 5.

Há uns meses atrás, dizia-me uma doente, já fortemente debilitada devido à agressiva terapia contra o cancro e com uma pneumonia grave bilateral, "Não se esqueça, doutor, que não há quem diga um ai e que não esteja a doer". É bem verdade isto, e nunca me esqueci. Cabe-nos então a nós, médicos, tratarmos não a anemia, a pneumonia, o cancro, o enfarte, mas sim a pessoa com anemia ou com enfarte ou com cancro. A dor trata-se com drogas, sim, mas não só. A vida dos médicos é estranha, a vida dos médicos é paradoxal e, como disse alguém importante, "a vida dos médicos não é fácil e é essencial que o não seja".

4 comentários:

  1. Abordagem pertinente e útil nos tempos que correm. Aos profissionais de saúde é exigido a perfeição e eu entendo porquê. Tratamos de vidas, somos muitas vezes decisivos no sucesso ou insucesso de qualquer intervenção. Mas somos humanos. Eu sou mais da área da farmácia e acabo por não ser "tão posta à prova" como os médicos... Mas admiro-os! Principalmente os do ramo da Oncologia e os Cardiologistas. Não que tenha algo contra os outros mas imagino a pressão de lidar com corações humanos e saber que não se pode errar, ou então a necessidade de deixarem as emoções de lado para lidarem com doentes terminais. Eu estagiei no IPO e tive lá a clara certeza que nunca na minha vida teria conseguido ser médica ou enfermeira... É que sou demasiado sensível e sentimentalista. Sei perfeitamente o que é exigido aos profissionais de saúde enquanto humanos a lidar com outros humanos. E eu tenho cá uma ligeira impressão que me ia "pegar" demais. Sendo assim, tenho a certeza que existam muitas pessoas com o dom para tais profissões que admiro. Ainda bem que posso fazer parte dessa equipa... Mas o resto era exigir demais! Por isso senhor doutor, felicito-o por ser a pessoa e o médico. *

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  2. Obrigado Célia e Miguel pelos vossos comentários. Célia, não é obrigatório que tenhamos de nos esvaziar dos sentimentos e da sensibilidade para sermos médicos... e mau médico é aquele que não possui essas características... é tudo uma questão de equilíbrio.
    Miguel, é um texto simples, nada de especialmente brilhante, mas obrigado.

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  3. Mas tens de concordar comigo que há muitos que nao o conseguem obter!! E eu sei que não sabes por isso eu digo-te o meu nome: Cecília ;) * Mas eu ja tou habituada às trocas! Beijoca senhor doutor*

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